Agiotagem avança no AM com ameaças, extorsões e lavagem de dinheiro
Investigações revelam organizações que cobram juros abusivos, tomam bens e ameaçam devedores
Empréstimos com juros de até 70% ao mês, vítimas coagidas a entregar imóveis e carros e dívidas que passam de um grupo criminoso para outro. Esse é o cenário da agiotagem investigada no Amazonas, que, segundo a Polícia Civil, passou a operar como um negócio ligado ao crime organizado, envolvendo extorsão, lavagem de dinheiro e violência.
“São vários grupos interligados que se apoiam mutuamente”, afirma o delegado Cícero Túlio, titular do 1º Distrito Integrado de Polícia (1º DIP). A autoridade policial ressalta que um dos principais sinais de alerta é a cobrança de juros extremamente elevados, que podem chegar a 30%, 40% ou até 50% ao mês.
“Em menos de dois ou três meses, dívidas assumem proporções impagáveis. Um débito de R$ 10 mil chega até a R$ 60 mil. Muitas vítimas acabam entregando imóveis, veículos, eletrodomésticos e outros bens por causa das ameaças”, explicou. Ele acrescentou que, mesmo após prisões realizadas durante a Operação Tormenta, integrantes de uma quadrilha especializada continuaram extorquindo vítimas de dentro do sistema prisional e chegaram a debochar da atuação das autoridades.
Outro mecanismo identificado pela Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) é o chamado “repasse de dívida”: “Quando um grupo percebe dificuldade para continuar extraindo dinheiro da vítima, transfere o suposto débito para outra organização criminosa, que inicia novas cobranças ainda mais violentas. Paralelamente, empresas de fachada são utilizadas para ocultar a movimentação financeira do esquema. As dívidas são infinitas e os valores circulam por essas empresas criadas para dificultar o rastreamento pela polícia”, explica o delegado.
Cícero Túlio orienta que as vítimas procurem imediatamente uma delegacia para registrar boletim de ocorrência em casos de extorsão de agiotas.
Operações expõem avanço
As operações policiais realizadas neste ano revelam a dimensão do problema. Em abril, a segunda fase da Operação Tormenta prendeu cinco pessoas, entre elas o tenente da Aeronáutica Caique Assunção dos Santos, apontado como integrante de uma rede interestadual de agiotagem, extorsão, roubos e lavagem de dinheiro. Segundo a investigação, o grupo tinha como alvo principalmente servidores públcios, cobrando juros superiores a 50% ao mês e tomando veículos de luxo, imóveis, joias, documentos, cartões bancários e até o controle dos aplicativos financeiros das vítimas.
Já no início desta semana, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com apoio da PC-AM, deflagrou a Operação Usura. Cerca de R$ 160 mil em dinheiro, dois veículos, joias, celulares e documentos foram apreendidos durante a ação.
Entre os investigados estão o policial militar Marcio Roberto Ribeiro Coutinho, conhecido como “Cara de Sapato”, e três advogados. A partir das apurações conduzidas pelo Gaeco, foi identificada uma organização estruturada que concedia empréstimos de até R$ 200 mil por vítima, impondo juros considerados abusivos, que variavam entre 30% e 70% ao mês.
O que diz a lei?
Na avaliação do advogado Celso Valério, a prática da agiotagem continua prevista na legislação brasileira, apesar da falsa informação frequentemente disseminada pelos próprios agiotas. “A Lei de Usura continua em vigor. Ela não se aplica às instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central. Já a agiotagem consiste justamente na cobrança ilegal de juros abusivos, muitas vezes de 30%, 40% ou 50%, criando uma dívida que nunca termina”, explicou.

